Já pensaste em ser Comandante de um navio cruzeiro?

No artigo de hoje irei falar sobre o progresso de carreira para quem pretende trabalhar como oficial da ponte de um navio de cruzeiro.

Quando o normal terráqueo (forma carinhosa que usamos para descrever pessoas que não são do mar) pensa em navios, o primeiro que lhe vem à cabeça é provavelmente o cruzeiro.

Sendo uma indústria em crescimento, cada vez há mais a necessidade de contratar novo pessoal para trabalhar a bordo destes gigantes do mar.

A bordo destes navios existem diversas profissões de tudo o que se possa imaginar, tais como: artistas, camareiras, empregados de balcão, engenheiros, gestores hoteleiros, esteticistas e claro aqueles que “conduzem” os navios – os oficiais da ponte.

Como ainda desconheço este mundo, resolvi pedir a ajuda de um Sr. Cte. que admiro e que muito amavelmente aceitou ajudar-me.

Este é o Cte. Amadeu Albuquerque, que foi Cte. do navio Sovereign da Pullmantur.

Fiz-lhe algumas perguntas acerca do seu percurso académico de forma a tentar desvendar o caminho para o sucesso.

Como foi parar à Marinha Mercante?

Inicialmente o Cte. pensou em ir para a Marinha de guerra, uma vez que nem tinha conhecimento da marinha mercante.

Início de carreira:

Começou a carreira como praticante no navio Pátria e, mais tarde, esteve também no navio gémeo Império.

Após o 25 de Abril a Marinha Mercante portuguesa sofreu grandes alterações, tendo ficado reduzida a um pequeno número de navios.

Devido a esta situação, o Cte. Amadeu Albuquerque teve de dar uma volta na sua carreira e procurar um caminho diferente, tendo estado uns anos ligado à pesca.

Entrada no mundo da Pesca:

O Cte. diz ter estado 13 anos na pesca do Bacalhau.

Na pesca o ordenado base é baixo, sendo que se ganha pela percentagem de pescado apanhado.

Por essa razão, para se obter melhores resultados, os oficiais têm de estudar mecânica de fluídos, meteorologia, oceanografia, entre outras ciências…

A pesca é muitas vezes praticada nos mares do Norte, o que faz com se ganhe experiência em águas polares.

O Cte. contou que “todos estes conhecimentos me foram extremamente úteis mais tarde, por exemplo nos cruzeiros ao Spitsbergen, incluindo uma famosa (para mim…) saída de Longyearbyen, já com o porto fechado pelo gelo ou na maneira de enfrentar condições de tempo adverso.”

É bom experimentar vários tipos de navio?

O Cte. disse que “A pesca foi-me muito útil, mas isso não significa que eu ache que os oficiais tenham que andar a saltar entre áreas de atividade, só para ganhar conhecimentos gerais.”

Quando me perguntam qual é o tipo de navio em que gostava de trabalhar eu respondo sempre da mesma forma: O que eu quero é ganhar experiência!

Podemos até ter alguma preferência mas, numa fase inicial, o mais importante é aprender, uma vez que arranjar o estágio de praticante não é propriamente fácil.

Quando perguntei ao Cte o que achava ele disse:

“Provavelmente, o melhor era experimentar algumas áreas até decidir qual “a tal”. O problema é como conseguir isso. A área de atividade acaba por ser frequentemente produto da sorte.”

Como será o futuro?

Sendo os navios autónomos uma possibilidade do nosso futuro, o Cte. refere a importância das competências ligadas aos recursos humanos e à carga e descarga de certos tipos de produtos. Além disso será também importante investir em cursos profissionais para completar o CV.

O ponto de viragem na carreira:

“Em 2000 fui convidado para começar, do zero, uma companhia de cruzeiros Espanhola. Com uma isca dessas, engoli anzol, linha, cana e tudo. A companhia foi um sucesso sem precedentes e acabou comprada pela Royal Caribbean, que imediatamente trouxe navios de outras companhias do grupo. Foi assim que acabei no “Sovereign”, no “Monarch” e nos outros 4 onde passei os últimos anos…”

Qual o segredo para o sucesso?

“Não acho que exista uma receita especial, a não ser a do costume, ““trabalho, dedicação e vontade de fazer sempre melhor””. Serve para todas as coisas da vida, em todas as ocasiões e não tem nada de original. Uma regra que deveria ser seguida por todos os tripulantes é a de que, quando desembarcarem, deixem o navio um nadinha melhor do que quando embarcaram. Se me perguntarem qual a palavra fundamental, eu diria “paixão”… ”

Quais as experiências mais interessantes que testemunhou?

“Quanto a experiências interessantes, lamento mas sou um desastre. Passei montes de vezes no Triângulo das Bermudas e estou aqui, não desapareci, não fui raptado por extraterrestres, não me perdi nem vi monstros de sete cabeças. Navegando pelos mares deste mundo, nunca vi sereias (coisa que lamento profundamente…) nem polvos gigantes (provavelmente porque os comi antes de crescerem). As coisas mais interessantes que vi no mar, como o famoso raio verde, as auroras boreais e a bioluminescência de certas algas, são todas coisas naturais.

Claro que estive no meio de tempestades, mas as situações mais perigosas que enfrento são muito mais corriqueiras. Quer dizer, se está mau tempo, eu sei perfeitamente o que fazer para minimizar os riscos e manter o navio em segurança. Mas se o sistema de esgoto se entope e tenho 400 casas de banho a devolver o produto inicialmente depositado, só me resta aguentar os vários comentários agradáveis dos passageiros. Isso sim, é uma situação de crise ao mais alto nível.”

Conselhos para quem está interessado em seguir uma carreira marítima:

“A profissão vai, sem dúvida, experimentar mudanças que ainda nem podemos imaginar.”

Por esta razão é importante mantermo-nos os mais atualizados possíveis, através de associações, palestras, internet, etc… Também nunca devemos parar de estudar e procurar aprender sempre mais. Muitas empresas oferecem formações aos seus tripulantes, que devem ser aproveitadas ao máximo.

Para concluir o Cte sublinhou que “é fundamental ter paixão pelo que fazemos e nunca deixar de aprender.” A sua frase favorita é:

“Se pensas que és perfeito, és um perfeito idiota”.

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